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XEQUE-MATE__
por Victor da Rosa

O xeque-mate - do persa shāh māt: o rei está morto - ocupa uma função controversa nas leis do jogo de xadrez. Trata-se de uma expressão, como se sabe, que designa o lance final - é quando um dos reis, afogado pelo adversário, não tem mais qualquer possibilidade de movimento. De saída, e nisso consiste o primeiro traço de ambivalência da expressão, a rigor, o rei não morre. Pode-se dizer, no máximo, que o ar lhe falta - pode-se dizer até que o rei agoniza - mas de seu destino quase nada sabemos. Em resumo, o xeque-mate é exatamente, negando sua enunciação, o lance anterior ao que podemos chamar de morte. Daí que o gesto de derrubar o próprio rei pra simbolizar a derrota pode ser interpretado enquanto abandono, desistência e até mesmo fuga; mas não, a meu ver, enquanto morte. Os longos matchs entre mestres internacionais, que por vezes chegam a dez ou quinze confrontos, dão o testemunho (prático, talvez) do que estou querendo afirmar - perde-se a batalha, ganha-se a vida. E talvez seja esta dimensão falsa da morte que acaba moldando certa atitude do grande jogador de xadrez - algo que se posiciona entre lição e arte - que é justamente a consciência do abandono. Diferente do senso-comum, que vê grandeza naquele que luta até o último instante - a saber, até a morte (o herói medieval morre no campo de batalha) - o jogador de xadrez deve ter a medida de seu esforço. Saber abandonar uma partida no momento certo, portanto, é uma demonstração de domínio - no caso, da própria derrota. Só os jogadores medíocres - leia-se: incapazes de ler e fazer previsões da própria condição dentro do jogo - são capazes de perder uma partida através de um xeque-mate. A morte, por jamais tornar-se concreta, fica sendo pura potência. Talvez seja este caráter inacabado, afinal - o jogo acaba sempre antes de acabar - que conceda ao jogo de xadrez, na forma de rito, miniatura de guerra, a possibilidade de um eterno recomeçar.

 

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