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ARTE EM CASAS PRÉ PANDEMIA


Antes da pandemia da COVID-19 e antes de #ficaremcasa ser uma medida de prevenção, já havia artistas criando e pensando na sua casa como um espaço para suas obras. Tanto longe, na gringa (Estados Unidos e Europa), como também por aqui, pertinho de nós.

De início pretendo sugerir o olhar sobre a arte presente em casa, sobre o que existe aí na sua casa e sobre as questões possíveis de serem feitas. Observe o seu entorno e responda: onde está a arte? Está em um quadro pendurado na parede? Está no modo como algumas coisas estão dispostas, criando um conjunto visual coeso? Está na luz que entra e que se modifica ao longo do dia nos mostrando o tempo? Ou está no design dos objetos e coisas que estão ao seu redor? Sem querer cair na cilada de julgar o que seria arte e o que não, apenas fiquemos com a ideia de que já há alguma arte aí, ainda que essa apareça como possibilidade ou como um convite ao olhar, que pode ser ignorado e que talvez não seja retornado.


Proponho, então, pensarmos a arte presente em casa e as atividades que as circundam, principalmente as ações que remetem às artes que aqui me interessam: a dança e a performance. Lembro de algumas atividades que se aproximam da dança ao pensá-las como rituais que compartimos com pessoas que temos vínculos afetivos e que consideramos próximas. Isso geralmente ocorre em festas de todo e qualquer tipo: aniversários, casamentos, natal, ano novo, e outras nas quais a casa se transforma em um espaço compartilhado com alheios. Em muitos destes encontros são compartilhados também códigos de comportamentos que envolvem ações corriqueiras como conversar, dançar, comer e, em alguns casos, beber e fumar. Já outros encontros são mais fúnebres, como um velório por exemplo, e exige outra postura de nós. O comum nestes rituais, e também em outras situações cotidianas, como a visita de um amigo, por exemplo, é perceber que a casa deixa de ser um espaço íntimo privilegiado e passa a ser um espaço temporariamente compartilhado com outros.


Há muitas manifestações populares brasileiras que acontecem em forma de procissões e cortejos. Essas deambulam pelas ruas da cidade e realizam paradas em diferentes casas, nas quais muitas vezes saúdam uma imagem, rezam e cantam. As pessoas, nessas ocasiões, geralmente são recebidas com muito acolhimento, seja brindando um alimento e uma bebida para seguirem seu trajeto ou contribuindo financeiramente para um propósito maior (uma festa ou um objetivo em comum para a comunidade). Para não ficar no campo generalista, cito, do meu repertório, a festa de Santos Reis, realizada na cidade de origem da minha família no interior do Pará, em São Domingos do Araguaia e que desde criança chama minha atenção.


São Domingos do Araguaia, situada no sudeste do Pará, é uma cidade com 30 anos de fundação. A maior parte da população vem do estado do Maranhão e é lá que ocorre o “Santos Reis”, uma festa católica realizada em homenagem aos reis magos cristãos. Organizada pela família Patrício, a festa começou como promessa feita a um santo para ajudar a melhorar a saúde da sua matriarca, atualmente falecida. As características desta festa não são exclusivas, se assemelham às manifestações de outras cidades do Brasil conhecidas como “reisados” ao mesmo tempo que se fragmentam nas suas diferenças. Espalhadas pelo território brasileiro, estas festas acontecem principalmente no Norte e Nordeste do país.


A festa de Santos Reis/Reisada/Folia de Reis ocorre em São Domingos todos os anos no período de 25 de dezembro a 6 de janeiro, desde a década de 1960. A partir do dia de natal, um grupo da família Patrício, formado por cantadoras, violonistas e os caretas, percorre a cidade, de casa em casa, levando uma imagem de santo. Esse grupo canta e repete um pequeno roteiro na porta de cada casa onde constam algumas instruções que indicam o momento de acender a luz, abrir a porta e conversar. Após a cantoria, os caretas se aproximam e jogam um lenço no ombro da pessoa da casa. Esta pessoa os recepciona e faz sua contribuição enrolando dinheiro no lenço. A contribuição serve para ajudar a realizar a festa que acontece no dia 6 de janeiro, mesmo dia designado pelo calendário católico para saudar os Reis Magos. Isso, então, se repete em diferentes casas. No ano de 2021 não houve procissão, mas há rumores de que a festa e as orações teriam acontecido numa versão mais intimista. Pergunto-me como estas pessoas, que tanto contribuem para a cultura da cidade, poderiam acessar um auxílio emergencial da Aldir Blanc? Mas isso é outro assunto.


Dando um salto para compreender mais possibilidades para as artes em/na casa, no nicho do que muites entendem como ‘contemporâneo’, há inúmeros exemplos de obras de performance e de dança que acontecem em casas. Por conta disso vou apenas sugerir uma referência que me atravessa: as fotografias “Untitled (Rape Scene)” de Ana Mendieta [1]. É aqui que quero chegar. Em Salvador, alguns coletivos de artistas ocupam casas para realizar suas atividades, tanto formativas, como de criação e pesquisa. Na dificuldade de acessar espaços institucionalizados, como galerias e teatros, ou às vezes por opção política, se juntam para movimentar casas cedidas ou alugadas como um espaço para atividades artísticas, na tentativa de se verem livres das amarras e opressões que outros espaços institucionalizados requerem para a realização de obras e atividades.


É mobilizador ter a possibilidade de gestar um espaço que seja organizado a partir de regras próprias, tanto quanto a preocupação com as responsabilidades que se assumem com proprietários e com a comunidade do entorno. Desta possibilidade, gostaria de citar duas iniciativas, pela proximidade estética e política, que são: A Casa Charriot [2] e a Casa Rosada [3]. Ambas são geridas por coletivos independentes com acesso, nem sempre facilitado, a editais e incentivos privados para seus projetos. Na Casa Charriot residem alguns coletivos e projetos que passam pela moda, dança, cinema, performance e teatro - a exemplo do coletivo Pico Preto [4](antes chamado de coletivo Ponto Art), que tem o propósito de “desenvolver ações artísticas afirmativas e evidenciar o protagonismo negro nas produções artístico-culturais da cidade”. Já a Casa Rosada é ocupada pelo coletivo Deslimites [5]“que desde 2015 propõe diversas ações estéticas, cênicas, políticas e formativas, atravessando discussões transversais - emancipação, feminismo e descolonização do saber - com dança. Estas ações têm a finalidade de testar formas alternativas de vida, de arte, de relações, de comunidade e de mundo”. Em ambas reside a preocupação e a busca pela autonomia dos seus espaços, tanto artística quanto financeira, através da realização de atividades artísticas para todos os públicos e em diversas linguagens. Estes lugares priorizam sempre, na sua programação e equipes, artistas e espectadores de grupos minorizados, e têm o intuito de ampliar o público para as artes e de olhar para es nosses e tentar acolhê-les. É por conta disso que ambas as casas recebem propostas voltadas para o fortalecimento político de mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+, deficientes, mas não somente, pois são locais que se querem democráticos e, assim, reivindicam espaço para pessoas que são postas às margens dos circuitos ditos oficiais de artes, tanto artistas quanto o público - pois bem sabemos das exclusões em espaços institucionalizados, como teatros e galerias, quando ouvimos alguém dizer que nunca foi ao teatro ou que tem medo de entrar no teatro, ou ainda que ‘ali não é espaço para mim’.


As duas casas estão ativas há mais de 2 ou 3 anos, com programação de oficinas, apresentações de espetáculos, shows musicais, gravações de clipes, festas, entre outras atividades. Digo ‘estão’ porque elas continuam ativas agora na pandemia, mesmo que remotamente, realizando conversas, oficinas, apresentações nas redes sociais e algumas atividades com poucas pessoas nos seus espaços, como a OMS indica. Como todas as iniciativas diferentes e insistentes realizadas durante a pandemia, as atividades não pararam porque as contas também não cessaram. A Aldir Blanc trouxe um respiro para muitas iniciativas, mas ainda assim é sempre pouco. Trabalhar muito para um retorno muito baixo. É assim que nos movemos.


Há uns anos, propus a Plataforma ACASAS [6] como um laboratório para experimentar a criação em casas, na prática, com outres artistas amigues. Foi assim que nasceu um evento intermitente e nômade que é realizado em uma casa cedida, sempre diferente, para que artistas convidados apresentem suas obras. Essa é uma tentativa de expandir a visibilidade de obras pequenas e artistas que não conseguem espaços ou os espaços não abrigam a grandeza de suas estéticas.


Em mais de cinco anos nesta investida, apenas três vezes acessei financiamento via Edital, uma em outro estado e outras duas aqui na Bahia. Em um deles o dinheiro foi devolvido por impossibilidade de adequação do projeto. Então, fizemos o ACASAS mais de 15 vezes e sempre realizamos o evento juntando dinheiro do nosso bolso. Mas a arte não dá dinheiro? Não estamos acostumados e muitas vezes não podemos pagar por arte, então tivemos que pensar como o dinheiro poderia ingressar. A saída foi vender comida e bebida e, às vezes, optar por vender o ingresso por um valor simbólico. Esse foi nosso ingresso econômico na existência da Plataforma. Não estava mais sendo sustentável realizar o evento, pois investimos tempo e esforço no trabalho que não nos satisfazia financeiramente e, para alguns, também não satisfazia criativamente, nem simbolicamente. Temos urgências, as contas não param. Já o ACASAS, parou.


E veio a pandemia...


De repente, todas as pessoas foram orientadas a ficar em casa por conta da pandemia do COVID19. Borbulharam e se espalharam pelas redes iniciativas de dança. Lá estamos nós, artistas, restrites ao espaço das nossas casas como sala de ensaio, reféns do olhar de uma câmera e impelidos a lidar com aparelhos e aplicativos para poder produzir nossos trabalhos. Parabenizo todes es artistas da dança que acompanhei durante a quarentena que conseguiram escoar seus trabalhos, dar aulas, criar espetáculos, apresentá-los, tudo em suas casas. Vocês arrasaram e me ensinaram muito sobre dança neste último ano.


Quando comecei a estudar e pesquisar a casa como um espaço para criação, a abordei sempre como um lugar feito de relações e não apenas como um local com estrutura arquitetônica e paisagística. Acontece que, agora, a casa se impôs, virou protagonista, quer aparecer, seja como fundo de tela ou como restrição, nossa pequena prisão. Neste contexto, descobri como o ‘olho no olho’ e o ‘respirar perto’ são importantes para o meu trabalho. Se me movimento fazendo arte em casas, é porque quero estar mais perto das pessoas, quero a proximidade que traz a realidade de convivermos num mesmo espaço, no qual podemos dialogar sobre suas regras, uma casa aberta e offline.


A partir destes exemplos quis apresentar algumas possibilidades de realização de arte em casas, mais especificamente na dança, desde antes de virar algo imposto. E vale lembrar que muitos artistas em suas casas estão precisando de ajuda. É muito fácil incentivar ou ajudar alguém a dar visibilidade para seu trabalho. Há muitas vaquinhas, cursos e pedidos de doações que estão nas redes sociais dos artistas que estão mais próximos de você. Tem uma pá de flyer, vídeos para compartilhar e eventos para assistir. A pandemia só piorou tudo. Ainda temos muitas restrições que impossibilitam o exercício da nossa profissão e estamos num rebuliço danado para conseguir pagar as contas. Então lembre-se, quando a pandemia cessar visite os espaços ocupados por artistas perto de você, visite as casas que citei, divulgue as atividades dos coletivos nas redes para seus conhecidos, pois se não nos juntarmos e contribuirmos, não mudamos nada.


Sigamos !!!



[1] Trata de fotografias em cores que documentam a ação de Ana Mendieta, realizada em Abril de 1973 enquanto estudava na Universidade de Iowa. É uma das tres fotografias que ela criou em reação ao estupro e assassinato de uma mulher no campus. Atualmente se encontra no museu Tate de Londres. Fonte: www.tate.org.uk/art/artworks/mendieta-untitled-rape-scene-t13355

[2] “Um espaço para as arte(culações) de artistas lgbtqi+ e negres”. R. Conselheiro Lafaiete, 5 - Comércio, Salvador - BA. Informações obtidas via instagram @casacharriot.

[3] Travessa dos Barris, 30, Salvador-Bahia. [R]existência Feminista / Negra / Indígena e LGBTQI+. Informações obtidas via instagram: @casarosadabarris .

[4] O coletivo Pico Preto atualmente desenvolve o projeto “despacho deferido”, confira mais no site e nas redes sociais: @picopreto.

[5] Para saber mais sobre os projetos da Deslimites, acesse as redes sociais @deslimitesart.

[6] Para ver registros e saber mais sobre a Plataforma ACASAS, acesse também o Facebook aqui

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