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  • @ana_rizek_sheldon

[ENTREVISTA] Gessica Catarina Neves

O desfile e os ensaios do Bloco Afro Bankoma apresentam canções e danças repletas de vigor, beleza e conhecimento. Tivemos o prazer de conversar com Gessica Catarina Neves, filha do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, diretora e uma das coreógrafas da Ala de dança do Bloco Afro Bankoma. Gessica também é produtora cultural, pedagoga e conselheira de cultura do município de Lauro de Freitas. Na entrevista que segue abaixo, ela nos contou sobre sua trajetória e atuação artística e sobre os desafios e as alegrias do trabalho realizado pela entidade cultural.


Ana R.S.: Gostaria que você se apresentasse e contasse como você começou a se interessar pela dança.


Gessica Catarina: Meu nome é Gessica, sou filha do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, nascida e criada nesse berço cultural da saudosa Mãe Mirinha de Portão, de Joãozinho da Goméia e Mametu Kamurici e atual presidente do Bloco Afro Bankoma. Como nasci nesse berço, venho desde pequena observando toda a movimentação cultural que tem dentro do terreiro. O respeito à hierarquia e à questão da arte, da dança, do toque, de aprender e de querer ensinar. Então eu observei muito isso e levei para minha vida. Hoje eu sou grata de ter nascido dentro desse berço do Terreiro São Jorge porque foi uma oportunidade para mim e para outras pessoas ter outras visões e buscar novos caminhos.


A dança chegou para mim quando eu tinha uns 7 anos de idade e foi quando o Bankoma surgiu. O Bankoma surgiu em 2000 e eu era pequenininha. Tem até um clipe, eu pequeninha dançando emocionada e vendo pessoas, minha tia e outras mulheres adultas, que não estão mais entre nós, dançando - principalmente as músicas de axé mesmo, os movimentos dos Mkise[1], os movimentos do círculo, da roda e eu cresci aprendendo esses movimentos. A importância dessa referência, essa comunicação ancestral mesmo de ouvir, de perceber o que os Mkise estão fazendo. Isso para mim já foi um estalo para eu querer fazer parte desse mundo. Então com o Bankoma, em 2000, eu começo a dançar, a aprender com os mais velhos... afloro isso. Em 2004 eu fui para um festival de dança, que foi a 9th Dance and the Child International Conference Salvador - Bahia - Brazil. Fui eu, minha prima e outras meninas da comunidade do Bankoma. E foi uma relação também muito importante porque me apresentou a outros artistas, outras percepções de música e de dança. Isso trouxe outro estalo para gente, de querer ainda mais estar presente e de mostrar a nossa dança. A gente começou em 2000. Em 2004 a Ala da Dança Bankoma foi convidada para esse festival. Naquela época eu não tinha essa noção. Hoje, eu já tenho essa percepção de que a gente faz dança mesmo, de que não precisa ter uma questão formal de academia para poder expressar o que o corpo quer dizer. Então, em 4 anos a gente vai para esse festival que tem coreógrafos, artistas, bailarinos do mundo todo que ficaram maravilhados com o nosso jeito, com nosso olhar, com o nosso corpo. Fizemos uma performance linda, o Bankoma também fez uma apresentação lá. Até então, como eu era pequenininha eu não podia ir para a avenida, o desfile da gente era no bairro de Portão.


Fui para a avenida no ano de 2007, no ano de Nzila. O Bankoma tem isso, cada ano tem um tema e ele é trabalhado nas coreografias. A gente levou para a rua em 2007, foi um período polêmico devido à construção do Bloco Afro Bankoma trazer um tema histórico sobre os Mkise. Muita gente pensou que a gente estava levando o candomblé para a rua e não era isso. Era uma outra percepção, um outro chamamento ancestral para a rua. E a gente sempre fazendo isso, modificando, a gente via a essência do Nkise, pegava essa essência e transformava na dança. Os movimentos que a gente traz são movimentos nossos, que enxergamos que essa energia faz. Como a gente percebe o ar, o fogo, e Bamburucema sendo uma mulher forte, a gente pegava esses detalhes dos Mkise e jogava para os movimentos. A gente levou Nzila para a Avenida. Foi um ano polêmico porque muitos pais de santo e historiadores falaram: “Vocês vão levar Nzila para a Avenida!” Enfim, estávamos levando a energia que já é da rua. Para quem entende a questão religiosa sabe que essas energias já estão na rua. Então não estávamos levando nada para a rua, só fomos mostrar que ele está ali presente. Foi um ano muito impactante para o Bankoma, por toda uma movimentação. Foi um ano em que o Bankoma levou os jovens da comunidade para Portugal. Isso nos deu uma impulsionada na mídia. Trinta jovens da comunidade foram levar esse corpo de dança para Portugal.


Em 2011 eu fico com a responsabilidade de assumir o Bloco Afro Bankoma como rainha. Foi o ano de Muxima, um ano de Oxum para o Terreiro São Jorge, para o Bankoma. Eu fui escolhida pelas energias para reinar no carnaval de Salvador. Uma outra representatividade... o Bakoma trazendo o empoderamento da mulher, apresentando as mulheres como rainhas - porque somos rainhas -, levando auto estima para gente e as meninas se espelhando nisso.



Imagem: Acervo Bloco Afro Bankoma


Ana R.S.: E antes disso o Bloco já tinha essa prática de nomear rainhas?


G.C.: Em 2006 o Bloco começa a anunciar as rainhas, foi um ano de [Nkise] Tempo, temos a primeira rainha. Quando o Bankoma iniciou em 2000, o trio era pequeno e ainda não tinha uma escolha específica das energias para quem deveria subir. Em 2005 teve indicação de subir uma menina e vimos que ficou legal, começamos a pensar em como mostrar, então as energias começaram a escolher essas meninas. O reinado no Bankoma é um reinado espiritual porque são as energias que te escolhem. As meninas ficam na expectativa das energias escolherem elas para esse momento, elas querem acolher. O Bankoma tem muita transformação... a dança, a confecção de adereço, ensinar, aprender, estar em coletivo o tempo todo. As energias vão observando e escolhem a pessoa que teve, nesse intervalo de um ano, uma passagem de aprendizado, de conhecimento, de dança, de tudo.


Em 2011 eu fui escolhida rainha, levei esse legado. Foi muito lindo, muito importante. Eu, lá em cima, brilhando. É uma sensação muito emocionante, porque você vê o Bloco de cima, vê as pessoas te olhando, vê multidões, vê um mundo. Os jornalistas falando: “Essa menina bailando, que linda, que energia linda”, o figurino, tudo! É muito forte. É uma emoção muito forte.


Em 2012 eu assumo a responsabilidade de monitorar a Ala de dança. É a partir disso que eu me torno a professora da Ala de dança Bankoma, até então eu estava nesse processo aprendendo. Eu assumo a responsabilidade que as energias deram. Comecei a coreografar junto com as outras meninas, ter outras percepções de música, pesquisando, aprendendo com outros, trazendo outros artistas para dentro para poder ensinar, para poder ter essa visão, não ser só a nossa. Há sempre essa preocupação, buscar novas formas sem perder a nossa essência. Foi muito gratificante porque uma menina de 18, 19 anos, imagina, comandando 50 bailarinas entre homens e mulheres, mães e pais de família! Foi muito importante! Não foi nada assustador. Claro que é impactante, quem trabalha em grupo sabe que sempre tem as opiniões de quem faz parte do grupo, mas graças a Deus e às energias, todos entenderam e perceberam a minha vontade, o meu querer e o meu crescimento dentro daquele ciclo. Eu sou bem falante. Já percebeu, né? Então, eu falo muito, gosto de aprender muito, eu gosto de ensinar muito, eu gosto de chamar para perto. E foi super emocionante. Eu cheguei lá, fui para Avenida, comandei, fiz reunião, fiz um grupo, tem até uma fala minha num filme [Samba de Santo] que está nos festivais, uma cena mostra uma fala dentro do ônibus, eu falando dentro do ônibus: “Gente, se concentrem, vamos brilhar, é nosso momento de mostrar a nossa dança, de mostrar o resultado de um ano de trabalho, de esforço!”. Muita gente larga suas coisas em casa para vir para dentro do terreiro e poder aprender, ficar aqui nesse mundo. O Bankoma e o terreiro proporcionam isso.


Ana R.S.: Importante o reconhecimento das energias da trajetória como artista. Você era nova, mas já era uma grande artista. Para quem nasceu no berço cultural riquíssimo, não tem idade certa, apesar do tempo trazer maturidade. Você sente que mudou sua trajetória a partir do momento em que você é nomeada rainha e, depois, quando você assumiu como coreógrafa?


G.C: A gente vai fazendo as leituras, hoje eu venho relembrar a memória do legado da dança. Aquele momento foi de emoção, de explosão, de querer estar ali com responsabilidade e ir fazendo por um motivo, por um coletivo. E agora eu faço a leitura do pouco tempo de espaço de aprendizado dentro daquele bloco e percebo que outras pessoas me ensinaram determinadas coisas, que peguei e aprendi sem saber e passei para o próximo. Eu assumo a responsabilidade da Ala de dança de novo e venho fazendo os movimentos na rua, brincando. Agora eu percebo determinados detalhes de cada fala, de cada movimento. Das energias também, porque Martim Pescador foi quem criou o Bankoma, então ele dá sempre os estalos de aprendizado: “Vamos buscar isso, pesquisar por este caminho”. A gente segue o que ele orienta e vai fazendo. Eu chamo as meninas e fazemos um laboratório de construção. Como é o tema? Vamos buscar elementos da natureza referente a esse tema, movimentos seus que se relacionem com o tema, é um balançar do braço, comer, tomar café, Nadir [Nóbrega] nos ensinou isso, desses detalhes de movimentos que a gente faz durante o dia. Então todos esses movimentos que a gente faz durante o dia estão nas coreografias do Bankoma. Todos esses movimentos estão na dança porque a gente percebeu que é uma coisa nossa, que a dança é tudo.


Os anos foram passando e entre 2017 e 2018 eu assumo outra função que é de coordenação. Primeiro estou na Ala de dança, fazendo toda a estrutura dos movimentos, passo os movimentos, organizo isso... depois eu passo para outra questão de administração e coordenação, de figurino, de adereço, de estética, de alimentação, de transporte e segurança. Passo para a diretoria da Ala de dança, tenho que organizar a equipe: quem vai cuidar dos adereços; o transporte; quem vai e vem; a programação de horário de ensaio; aquisição de material para fazer os adereços... essa outra responsabilidade que é a coordenação. E não só a coordenação da Ala de dança, vou para outros vieses também da instituição, como a banda, a Ala das Baianas, o pessoal quilombola de Tijuaçú que vem participar. E quando chegam essas outras responsabilidades para mim, eu vou buscar minha formação em pedagogia. Por uma questão de elaboração de projeto, de escrever, de falar, de manter. Eu fiz 4 anos de pedagogia, sou formada em pedagogia por uma questão administrativa mesmo. E a dança está neste paralelo, fiz cursos técnicos com vários professores, mas nada muito profundo, uma faculdade ou universidade de dança... mas pretendo ainda.


Ana R.S.: A profundidade está na sua vida. É muito interessante o laboratório de criação com a Ala de dança trazer a questão do cotidiano, pois casa muito com a questão que você colocou tanto de empoderamento, porque não é uma ideia de que a energia está distante, vocês transformam esses movimentos a partir da vivência, de como os Mkise estão na vida. Isso é muito interessante porque não é que a rainha está num lugar inalcançável, vocês são rainhas, então é o reconhecimento dessa realeza.


G.C: E desde 2006 tivemos outras rainhas, outras meninas e elas também estão tendo outras responsabilidades. Elas entendem o que o Bankoma proporciona para elas, elas vão buscar outras formações, mas estão sempre aqui dentro. Advogada, administradora, nutricionista. O Bankoma proporciona um olhar artístico para essas mulheres que têm outras vidas. Aqui dentro elas são rainhas, elas têm um processo de ensinar, aprender, construir. Hoje eu vejo essas mulheres que têm outras perspectivas, que elas podem conquistar muito além dos muros que dizem que existem para gente, porque, na verdade, não têm. E é um diálogo informal e formal ao mesmo tempo. Elas entendem, elas aprendem, elas querem. Tem a turma de crianças, elas me olham ensinando as adultas, até um dia em que eu vou dar aula para elas. Elas ficam tensas, as crianças. Com as meninas [mais velhas] eu dou uma aula mais puxada, a gente está levando a aula de dança para a Avenida. E as meninas [mais novas] ficam olhando minha aula. Quando vou dar aula para elas, já é uma outra Gessica. Isso é muito gratificante. O respeito que o Bankoma proporciona, o respeito que eu tenho... de enxergar a responsabilidade que eu tenho dentro do meu terreiro, dentro da minha família, isso é muito importante. E eu amo dançar, eu amo fazer isso, não me vejo sem estar nesse meio.


Nesse tempo de pandemia está muito difícil para as meninas, estamos tentando ver de que forma a gente se conecta, porque faz falta. Quando a gente vê que as outras entidades, outros grupos não estão fazendo suas atividades e as crianças, os adolescentes estão indo para outros mundos, outras coisas, como a questão da violência. É muito difícil e preocupante a questão da pandemia e da entidade não estar aberta para acolher e dar essa alegria. Porque você sai do seu trabalho e vem para cá para dentro para aliviar e para desestressar.

Os músicos, então, Ave Maria!... eles têm uma vida suada. Chegam aqui de noite, cansados e querem tocar, ensinar, extravasar, querem construir e construímos juntos. Existe a relação da música com a dança, eles assistem a nossa aula, a gente assiste a percussão. A gente corrige os meninos! Eles também olham para a gente. Jander, que é o vocalista, tem alguns movimentos que a gente faz que é para ele olhar e ver que a gente está finalizando a coreografia – a gente faz coisas para ele perceber isso. Há uma comunicação não só no processo de construção, mas também na hora do vamos ver, na hora do show. Essa comunicação com os meninos é muito importante. A música e a dança estão atreladas o tempo todo, não são distintas. Essa relação com a música, com os meninos é emocionante e está triste agora com essa pandemia, mesmo que a gente tenha os meios de comunicação, mas o contato pessoal é importantíssimo. E pensar que tudo isso já está há um ano e ainda vem mais um ano por aí. Temos que pensar alguma forma virtual de trazer esses jovens para dentro do terreiro. Está difícil, a gente vai perdendo um pouco do anseio, do amor.


Ana R.S.: Por mais que a internet permita fazer conexões, a espontaneidade, a alegria de mostrar sua dança e ela ser vista, a brincadeira de corrigir o outro… é um momento de muita alegria, essa alegria promove um equilíbrio de saúde. E me lembrei de algo que você comentou na outra live sobre estar sempre atenta ao modo das crianças dançarem, as danças das senhoras mais velhas e como os Tatas[2] dançam. Como cada um compõem essa coletividade, como cada um tem um jeito diferente de fazer o movimento, ou tem uma habilidade diferente, ou percebe o mundo de uma maneira diferente. Achei isso muito lindo. E isso está na sua fala.


G.C.: Eu observo muito. A professora Nadir Nóbrega e outros professores me apresentaram essa técnica de observar. E o candomblé também faz isso, até ao fazer brincadeiras mesmo, quando criança de querer imitar o outro. Desde criança a gente faz um Xirê [3] interno nosso, só das crianças, imitando os mais velhos, imitando o Tata que tem um jeitinho. Esses movimentos, a gente já coloca na coreografia, não pode faltar. É engraçado porque quando a gente constrói e mostra, as pessoas falam que aquele movimento é de tal pessoa, então a gente organiza para fazer daquele jeito. É a nossa cara, é o Bankoma. Temos que olhar os nossos para a gente poder fazer, porque são corpos diferentes. Se percebe que na Ala de dança tem muitos corpos, magro, gordo, baixo, não tem estereótipo certo para a Ala de dança. A gente busca que cada um, no entendimento do seu corpo, faça a dança do seu jeito. A gente tem a diversidade de corpos dentro da Ala, isso é importante porque ninguém se acha feio de acordo com o que a mídia propõe para o mundo. Isso, aqui, não tem. A Ala é aberta a todas, não tem essa diferença de cor, de raça, de opção sexual, então isso também é um alerta e uma abertura muito grande para perceber a diversidade do corpo, das pessoas e do mundo. Por exemplo, quando as meninas sofrem bullying na escola, a gente conversa, a gente diz: “Não! Você é linda, é maravilhosa. Não recue não, deixe seu cabelo, faça o que você quiser, porque você tem o direito de ser quem você é”. Quando eles vestem suas roupas se sentem mesmo verdadeiras rainhas e reis, porque temos os bailarinos, temos essa referência para os meninos aqui dentro, a roupa dos meninos é igual a das meninas, não tem nada que seja diferente, é tudo igual. Enfim, é essa autoestima mesmo, essa beleza que a gente quer levar, essa união, essa força, esse coletivo de pessoas distintas de vários lugares, do bairro, de Salvador... de vários lugares que vem para cá para aprender. Que ficam maravilhados com os movimentos, com a expressão... percebem a importância dos movimentos, percebem cada detalhe.


Ana R.S.: É um conhecimento muito rico e elaborado, muito refinado. A segunda pergunta é sobre os desfiles do Bankoma que sempre trazem para a Avenida a cultura do povo de santo e as energias cultuadas nos terreiros. No trabalho da Ala de dança essas energias também estão presentes? Se estão, como? Como você percebe esse momento em que se homenageia e reverencia os Mkise numa festa considerada profana? Anteriormente você falou, quando você começou a apresentar a sua trajetória sobre o ano que foi polêmico a respeito da polêmica gerada pelo tema de Nzila, fiquei querendo te perguntar algo que está relacionado a isso, que é sobre as casas de candomblé angola serem mais resguardadas. Meus amigos angoleiros sempre falam que antigamente não se podia pedir a bênção na rua, era só um gesto que se fazia, porque não era uma coisa dita abertamente, junto com essa pergunta sobre as energias me ocorreu também perguntar se essa polêmica que você sentiu em 2007, se você acha que pode ter a ver com isso?


G.C.: Historicamente os povos Bantu foram os povos mais reclusos. Eles ficavam mais dentro das senzalas, pegavam no batente e tomavam chibatadas. E o povo Ketu estava mais dentro de casa, aprendendo alguns feitos, algumas coisas. Eles ficaram mais em ascensão, por conta de estarem sempre se refinando, aprendendo com os senhores, colhendo um pouco daquele conhecimento. Com a religião conseguiram mostrar uma outra forma de cativar determinadas pessoas. Os povos bantus e jejes têm essa coisa restrita, estão sempre fechados. A origem, o nascimento, a transformação da religião, como se é iniciado... tem um outro regimento. E por conta disso, outras casas ficaram impactadas ao Bankoma levar a energia de Nzila para rua. A gente fez palestra, levou para o museu, a gente tem um museu aqui dentro, fizemos um seminário com pais e mães de santo, historiadores, antropólogos. Foi um seminário enorme aqui dentro do terreiro para poder explicar como a gente estava levando.


E hoje, visualizando, eu percebo que não era nada disso. Naquela época, como estava iniciando a entidade [o Bloco], levando a voz do povo de santo para a rua, as pessoas tinham essa preocupação: de que forma que o terreiro e o Bankoma estava levando essa energia para rua? Como vai ser a roupa? Como vai ser visualizada essa energia de Nzila? A energia de Nzila é muito forte, a questão da religião que demonizou o próprio Exu como o diabo. Essa energia de Nzila somos nós, nós somos Nzila, todos que estão na rua. É um sim, um não e o equilíbrio – essa é uma fala de Mameto [Kamurici]. Nós somos esse movimento o tempo todo porque uma hora a gente quer, na outra a gente não quer, a gente se equilibra, depois se desequilibra. A gente levou essa energia para a rua, a energia da comunicação, do comunicador, que conecta o céu e a terra, que leva as nossas mensagens para os Mkise. Então a gente estava levando isso, como Exu tem sete elementos que ele carrega, a gente levou: comunicação, tecnologia, alimentação. Para cada elemento a gente fez um cartaz enorme e em cada cartaz a gente viu o que Nzila quer dizer com cada elemento. Durante o seminário a gente se dividiu em 7 temas: os dançarinos, os músicos, os filhos da casa, os historiadores, as mães e pais de santo... cada grupo discutiu um tema, foi buscar como é a energia de Exu, como ela é naquele tema e depois a gente discutiu os sete temas. Foi muito importante, porque a gente percebeu como é a essência do Bankoma e a importância de levar essa mensagem para a rua e levar também a questão bantu.


A gente vê pelas nomenclaturas, a gente fala o nome dos Orixás, mas não dos Mkise. Gongombira é Oxóssi, a gente tenta falar nas duas línguas para as pessoas entenderem e aprenderem. Isso também é uma forma do Bankoma levar esse bantu para a rua. Todo mundo aprendeu, todo mundo entendeu, com muito respeito a importância e ao legado do Bankoma. Os pais e mães de santo, todos saem de Bankoma, aprendem a letra das músicas, querem entender, porque é também um ensinamento da língua. O tema vem em bantu e você tem que aprender para poder cantar. De certa forma a gente ensina. Nzila é Exu, cada tema vai entranhando nas pessoas porque elas cantam naturalmente as músicas e isso é importante.


Quando a gente nasce em 2000, o Bankoma surge com essa missão de levar para a Avenida a voz do povo de santo, a gente canta para o povo de santo e chama o povo de santo para a rua. Para dizer que a gente existe, que está aqui e tem que ser visto e revisto: “Nos respeitem, nos conheçam” para a gente poder se manter nesse mundo. A questão da bênção, do vestir... a gente coloca nossas contas, a gente sai de conta e de turbante. Tem esses detalhes que vão influenciando e impregnando, até para as meninas que não são de candomblé e que são da Ala de dança. O corpo da Ala de dança é feito por meninas da comunidade, algumas são iniciadas em outras casas, outras são do próprio terreiro, mas a maioria não é iniciada. Elas entendem e respeitam. Elas vêm de roupa padronizada, não vêm de shortinho muito curto, vêm de branco a depender do que estiver acontecendo no terreiro. Elas têm esse respeito e não são de candomblé, querem dançar e aprendem a falar. Isso para a gente é super importante, é a voz do Bankoma no mundo mesmo, porque são esses detalhes que influenciam a vida cotidiana de todo mundo... tudo que está no dia-a-dia. Levar o Bankoma para a Avenida e levar para o mundo é super importante.


Esse ano que a gente não foi para a Avenida foi um impacto muito grande nessa visibilidade... de não estar nas mídias. O carnaval para a gente é a nossa mídia, o que nos transporta para o mundo. Também fica muito difícil a gente querer transportar quando a gente não está nesses lugares. É um lugar em que há uma diversidade de pessoas te observando. Se eu fizer uma live ou um evento, nele não vai estar o mundo te observando. Vão ter várias pessoas de vários lugares, mas isso não vai atingir determinadas pessoas e o carnaval proporciona isso. São milhões, bilhões de pessoas te olhando. Tem uma importância a gente estar nesse espaço, dar nossa voz, nosso protagonismo aos jovens da comunidade. Senão os blocos não existiriam, se a gente ficasse dentro dos nossos bairros o tempo todo. Para que existem os blocos? Para se mostrar. A gente está aqui para se mostrar, para brilhar, mostrar nossa cara mesmo, nosso movimento, nossa dança, nosso brilho e todo nosso esforço. A quinta-feira e o sábado são os dias da gente se mostrar. Como não teve isso, a gente fez a live, foi muito importante, a gente manteve a coroação da rainha, virtual. Ela sabe da importância de estar sendo vista como rainha, não pela forma como é vista pela mídia, mas de ser vista pela comunidade, pela Ala de dança e por todos nós. Ela não é iniciada, está entrando numa casa, adquirindo as percepções do que é a religião, ela é de Bamburucema e a energia de Lemba escolheu ela. Ela confeccionou a roupa vendo cada detalhe no que o mundo está se tornando, mas ela sabe da importância porque ela vai acalentar as meninas que estão em casa. Ela vai passar uma emoção para as meninas que estão tristes porque não estão dançando e porque não sabemos quando a gente vai se ver.


Essa pandemia está fogo, está matando as pessoas, as pessoas estão morrendo psicologicamente. Elas não estão tendo contato, não estão se vendo, não estão perto, então o pouco que a gente pode levar essa emoção, já acalenta o coração. Claro que não é o que a gente esperava, mas dá um pouco de tranquilidade ao ver que as coisas estão caminhando, que o Bankoma está se moldando, está se fazendo.


As meninas que vieram dançar construíram a coreografia em uma semana! Martim deu a música para a gente, a gente fez a música, ele veio – ele dá o refrão “NKISI MBUTO YA KISOLA: Nkise, fruto, semente do amor!” O tema era ‘ser amor’, a gente cultivar o amor, cultivar os Mkise, respeitar os Mkise, agradecer aos Mkise. Esse ano a gente precisa disso! A gente precisa se olhar, se reconectar, agradecer sim, porque estamos sempre pedindo. A gente tem que agradecer por ter vida e saúde, ter comida dentro de casa, poder falar com outro, mesmo que esteja distante. Esse tema é para isso: vamos pedir, vamos fazer. A gente se juntou e, na medida do possível, criou a coreografia. Pensamos em movimentos de reverência a Oxalá: se curvar, se levantar, pedir proteção. Os movimentos que a gente fez foram referentes a esse tema. Movimentos de expressão mesmo, de Lemba, pedir proteção, se cruzar e pedir a bênção. As meninas já tem essa noção de que as coreografias são feitas dessa forma, então fizemos em uma semana. Ficamos aqui o dia todo, lembrando como a energia de Lemba é. É uma energia de paz, mas sem guerra não há paz, então também pensamos em movimentos expressivos, de quem vai à luta, de quem está à frente. É um processo muito emocionante, para as meninas que estiveram aqui. Elas ficam o tempo todo relembrando e perguntando quando vai ter de novo, para a gente estar conectada, é muito importante esse momento para aprender as coreografias. Marcela, a rainha, amou, gostou desse processo. Ela está representando, todo evento que tem a gente chama ela. Ela não foi para a avenida, mas na fala, ela diz que está no coração das pessoas, representando esse amor e esse carinho que o Bankoma tem por todo mundo. O Bankoma dá uns estalos e Martim dá uns estalos para a nossa percepção do que está acontecendo no mundo e como a gente vai se moldar a tudo isso. Fomos o único bloco que mostrou uma rainha, que fez uma referência à rainha falando dessa questão do empoderamento mesmo.


Os temas, a gente leva na flor da pele, para a vida, para o ano. Por incrível que pareça, todos os temas que o Bankoma propôs e que a gente conduz são para o ano todo. Então o ano de Nzila foi um ano de aberturas de caminhos, fizemos shows, foi um momento muito estrondoso, um ápice, abriu as portas para o Bankoma. O ano de Muxima, que foi o ano que eu reinei, foi o ano das mulheres. A gente levou todas as mulheres das águas, essa questão do empoderamento, do cuidado, levamos os nomes das rainhas africanas e todos aprenderam sobre elas. Levamos Mãe Mirinha porque a gente tem essa questão matriarcal aqui dentro do terreiro, pensamos nessa representatividade de Mãe Mirinha. Como seria Mãe Mirinha aqui? Pensamos no que a gente está fazendo e nela, que sempre foi uma mulher forte, que sempre abriu as portas para o mundo, abriu as portas para a comunidade, parteira, fazendo tudo. A gente quer fazer tudo, eu tenho essa sede de fazer isso, de tudo que chega a gente quer compartilhar, fazer, contribuir.


O candomblé quando veio para mim, eu já nasci feita, nasci iniciada, esse ápice do nascer e estar pronta também dá uns estalos para mim. Minha mãe estava grávida quando assumiu o terreiro, eu nasci feita. Fiz minhas coisas em 2014 e também todo mundo estava na expectativa de como seria meu posicionamento, de como eu estaria visível para o mundo, para as pessoas. Tem essa questão das minhas energias terem esse cuidado. Eu estou aprendendo, eu estou aqui e quero apreender, passo meu conhecimento, vou buscando conhecimento, solucionando. Eu não sei o que seria da minha vida sem o meu candomblé, porque tudo tem uma explicação, tudo tem um motivo, tudo tem um caminho. Para tudo as energias determinam de que forma podemos lidar com determinada situação. De ajoelhar, bater a cabeça, agradecer e pedir. A questão de levar as meninas para os palcos no Pelourinho, a gente só leva as meninas que tem um pouco de desenvoltura. Todas ficam na expectativa de ir para o palco do Pelourinho e é um processo que envolve a vontade de evoluir. Eu faço um curso preparatório com elas para aprimorar a expressão, ver o figurino, como elas vão ficar no palco, rodar, girar, pular e dar o seu máximo. A dança é o tempo todo fervorosa aqui dentro. As meninas estão sempre precisando desse estímulo.


Imagem: Acervo Bloco Afro Bankoma


Ana R.S.: Fico pensando sobre esse momento de grande aprendizado que é dançar no palco. E sobre o melhor momento para desfrutar desse acontecimento, porque às vezes não adianta você viver isso sem ter condições de perceber o que se pode aprender. Pensei também na energia de Lemba ser forte no tema deste ano e vocês terem criado a coreografia em uma semana. Diz muito sobre o conhecimento que vocês compõem no Bloco que é um legado e aponta para o futuro. E nesse momento, acho importante manter a cabeça conectada ao futuro. O que me leva para a próxima pergunta sobre os diferentes momentos dos desfiles. Pensando neles como momentos de grande encontro de bilhões de pessoas, da mídia filmando tudo, o que é muito intenso. É realmente algo importante, pois vocês são o único bloco de fora de Salvador a desfilar na Avenida. A pergunta é sobre essas diferenças dos desfiles, pensando nesse momento como um grande encontro e na dança como uma reverberação do corpo individual para o corpo coletivo – sobre as diferenças dos desfiles na quinta-feira, no sábado, o desfile em Portão e sobre o desfile virtual deste ano.


G.C.: Como falei, a cada ano o Bankoma leva um tema e nós levamos esse tema para a Avenida. Cada momento da Avenida é um momento único. A quinta é única, o sábado é único, em cada ano. Na quinta-feira nós somos os primeiros tambores (a gente tem uma música sobre isso) porque o Bankoma é o único Bloco afro que está na Avenida na quinta-feira brincando junto com os blocos de samba. Essa percepção do estar, o estar mental, de você ver aquele bloco naquele contexto ali. A gente tem uma frase que é a seguinte: primeiro a gente ouve aquele toque e pergunta quem é esse bloco que está aí; segundo, a gente vê a Ala de dança Bankoma com aquele brilho, com aquela leveza, com aquele espetáculo de bailarinos e show de figurino; em terceiro lugar você vai entender e se perguntar: Quem é? Eu sou o Bankoma. É sempre uma emoção! Na quinta-feira somos os primeiros tambores na Avenida. No sábado já estamos com outros blocos, entidades mais velhas com legados super importantes na nossa construção, porque a gente também se espelha nas outras entidades que estão suando a camisa e batalhando por esse espaço que não é fácil. Na medida em que a gente vai se tornando apto a outras modalidades de coordenação, de buscar escrever, estar nesse meio, lidar com edital, construir e buscar essas coisas, percebe que é muito difícil, infelizmente. Apesar da importância de movimentar os jovens da comunidade, a hora de buscar recursos é difícil, é um momento muito delicado. Então, como estou à frente dessas coisas, fico balanceada até de dançar.


No ano passado eu fui para uma reunião de segurança, de orçamento e tudo isso. As pessoas que têm o poder de decidir e fazer agem com desdém, não querendo ajudar, ou só querem ajudar na última hora, só no dia que a gente sai. A gente fica com a cabeça quente. A gente tem nossa identidade que é o nosso pano que, infelizmente, custa muito caro porque ele vem de São Paulo. As pessoas pensam que para o Bankoma sair basta o pano. O pano chegou, o bloco está na rua, não importa segurança, não importa trio, não importa nada. A comunidade fica na expectativa do pano. Quando chega esse pano aqui, a comunidade toda vem para cá, senhoras de idade, mães, crianças... todo mundo. As pessoas param suas vidas para isso. E na hora desses empresários, dessas pessoas, visualizarem isso, infelizmente, elas não entendem. É uma dor muito grande.

Ainda sou costureira também, costuro para poder ajudar nas coisas. Em 2020 foi muito forte porque organizei a Ala de dança: roupa, alimentação, transporte, figurino, 50 dançarinos, 20 crianças; ensaca tudo, dobra tudo, entrega a roupa, faz coreografia junto com as meninas. O tema era Bamburucema, movimento de vento. Construímos a coreografia no coletivo. Daí eu vou para administração, distribuição e separação de abadá, dobrar abadá, virar tudo. Reúne com segurança, porque a Ala de dança não pode ficar apertada.


O grupo de Tijuaçu todo ano está aqui, é um grupo de Senhor do Bonfim. São mais de 100 pessoas que vêm e ficam os 5 dias de carnaval aqui dentro do terreiro. É um grupo muito importante, é um quilombo que tem um grupo de samba de lata. Martim, incrível, nos mostrou, nos fez conhecê-los. A gente já foi para lá, eles vêm para cá. Muita gente de lá nunca veio para o carnaval, só com o Bankoma, então é uma relação muito importante. Eles vêm para cá, dormem aqui, ficam no barracão, na biblioteca, ficam por aqui, são pessoas que sabem da importância disso. Vem senhoras, adolescentes, mães de família. Vem 80, 100 pessoas... comem, bebem, dormem, tomam banho, fazem tudo aqui no terreiro. Sem orçamento. Eles arranjam o transporte, a gente dá um ofício afirmando que eles vêm para cá por conta disso, mas não tem um auxílio, um dinheiro para manter eles aqui. Eles vêm contribuindo, costurando e tudo mais. Então eu fico na costura, depois administro a chegada deles, vou para a administração da cozinha, porque precisa disso e daquilo. Até chegar o dia [dos desfiles], tem a distribuição e vendas de abadá. Na quarta-feira, a produção da costura... faltou produção... é muita gente e muita coisa que tem para fazer, então eu fui para a máquina [de costura], fiquei até quinta de manhã, virei a noite costurando, fazendo as coisas. Na quinta-feira, que é o dia que a gente sai, desde a manhã eu não saí hora nenhuma da frente da máquina [de costura], almocei na máquina, naquela emoção de fazer e acontecer, agilizar o que precisava ser feito. As pessoas na ACBantu ligando e perguntando: “cadê o abadá?” e eu fazendo um monte de coisas, subindo e descendo, todo mundo preocupado e eu fazendo tudo, pedindo para quem sabia costurar ajudar.

Quando chegou às oito horas da noite, eu ainda estava na máquina. Exausta, cansada, os pés inchados. Acho que foram as energias mesmo, tomei um banho, respirei fundo e fui para a Avenida dançar. Fiquei em pé a madrugada toda, o circuito é longo, terminou às três horas da manhã. Dancei, bailei, fiquei rouca – como aparece no vídeo – e eu estou lá, rouca falando para as meninas, motivando, mostrando a garra de todo mundo, desse empenho, dessa emoção, da importância de estar nesta vitrine mundial. A gente precisa estar nesses espaços.


Infelizmente, esse ano a gente não foi. Então quer queira, quer não, acaba fragilizando um pouco essa visibilidade e essas conquistas que a gente teve. Com fé em Nzambi e nas energias a gente vai ter outras possibilidades de sermos vistos... como esse projeto e outros que a gente está fazendo, outros que vão ter a nossa voz, mostrando.. Mas o carnaval é fogo, é uma emoção muito grande, é uma responsabilidade muito grande, é um anseio muito grande. A gente chora, a gente grita, a gente se estressa.


Eu sou conselheira de cultura do município, é por onde passam todos os projetos de cultura do município. Vejo como as pessoas tratam os projetos, então tem essa questão também de como as pessoas enxergam nossos projetos, como se escreve determinados projetos. Para cada mundo tem que escrever de uma forma, a gente escreve de uma maneira e eles não entendem ou não querem entender. É preciso buscar uma forma que esse povo entenda. É muito difícil porque quando a gente pensa que conseguiu um respaldo, uma noção notória de responsabilidade de edital, eles mudam e fazem uma outra coisa, acrescentam um ou outro detalhe. Tem uns dois anos que a gente não consegue um edital por questão de detalhes administrativos do edital. Antes a planilha era exclusivamente para pagar música, dança. Agora eles querem que a gente pague coisas essenciais como o trio e a segurança. E o dinheiro para a gente movimentar? Como é que a gente movimenta o dinheiro aqui dentro? Vou pagar o segurança, já foi. Vou pagar o trio, já foi. Vou pagar o motorista, já foi. E é fogo a gente lidar com esse sentimento, é muito difícil. Eu respiro fundo, vejo a garra da minha mãe nessas reuniões, ela é a atual presidente do bloco. Ela tem que estar nessas reuniões, eu vou acompanhando ela e percebendo a dificuldade das pessoas em querer ajudar mesmo. O dinheiro não é nem das pessoas e elas prendem o dinheiro. O que é meu eu estou distribuindo e vocês querem prender o dinheiro que não é de vocês e que vocês sabem que tem um propósito, que tem uma planilha, que tem um relatório para poder entregar, tem uma prestação, tem um respaldo de tudo aquilo e prendem, não pagam. Estamos há quatro anos sem receber patrocínio, ficamos sem esse dinheiro de uma vez. A única dificuldade que a gente tem é em relação ao orçamento mesmo.


O Bankoma sai do município de Lauro de Freitas, é o único bloco daqui que vai para Salvador no carnaval. Quando a gente conseguiu esse espaço, no ano seguinte, saiu uma lei dizendo que outros blocos de outros municípios não podiam entrar, não podia ter mais blocos de outros municípios dentro do carnaval de Salvador. Isso é muito mesquinho, porque tem muitos blocos de outros lugares, de bairros, que estão movimentando sua comunidade, seus adolescentes e não vão ter a visibilidade maior do carnaval. Então o Bankoma é o único de fora do município e a gente não arreda o pé. Criam situações para a gente não ir, mas a gente consegue orçamento e vamos sim! Tiram de um lado, a gente consegue de outro. É sempre esse processo árduo para conseguir orçamento, mas a gente não abaixa a cabeça porque a gente sabe que, infelizmente, as pessoas querem impedir que a gente esteja nesse espaço. É dolorido, mas é prazeroso também. Quando a gente vê a felicidade estampada no rosto de todo mundo é super importante, é gratificante. A quarta-feira de cinzas que é aqui dentro do bairro em Portão, que é onde as crianças desfilam, todo mundo fica emocionado! As mães, os pais ficam maravilhados quando veem seus filhos, os meninos que já tocaram, mas que não tocam mais ficam assistindo, cantores de outros blocos, só vendo… A quarta-feira de cinzas é um carnaval dentro do município e está movimentando! Movimenta tudo: a cultura, a economia, a estética, a musicalidade... movimenta a comunidade. É emocionante, é maravilhoso, fala de dança, fala de Bankoma, fala dessa perspectiva de vida que eu, ainda tão novinha, tenho essa oportunidade de aprender e ensinar. Isso é importante. Estou sempre buscando meu melhor para poder conduzir e continuar. Eu não desisto da dança. Vou para outras questões porque eu preciso ir mesmo tomar a frente de outras situações, mas a dança eu não largo. Não largo meu osso!


Imagem: Acervo Bloco Afro Bankoma


Ana R.S.: São muitos movimentos que você carrega e mobiliza. E essa sabedoria de lidar com a mesquinhez alheia, lidar com uma estrutura que é racista, que foi feita para não distribuir o poder, não distribuir o dinheiro... a possibilidade de emancipação e crescimento. São vários movimentos: o de ter que estar sempre na frente do movimento do outro – sobre isso que você falou de quando vocês chegam a um lugar, eles mudam um pouquinho a chegada, essa coisa de acrescentar uma burocracia, um muro. Estar na frente dos que querem colocar um muro. Isso é uma força de vida e a dança tem muito disso. De certa forma, a gente habita esse mundo com o nosso corpo e precisa aprender a realizar coisas sendo quem a gente é. E o Bankoma, por ser um bloco afro que existe enfrentando um mundo racista e opressor, é muito maior que a mesquinhez. E a última pergunta é sobre sobre as danças dos povos bantus. Na outra live você falou algo muito lindo sobre as danças dos povos bantus sempre manterem os pés enraizados, firmes no chão. Então... o que é essa dança? Como vocês atualizam ela? Que tipo de aprendizado esse legado coloca para a vida? Se puder fazer essa conexão específica com o legado dos povos bantu e para o futuro... Como você vê o Bankoma daqui a 1 ano, quando a pandemia estiver controlada, e para além desse futuro próximo, quando você já for uma coreógrafa idosa?


G.C.: A Ala de dança surge dentro desse berço. O terreiro São Jorge [Filho da Goméia] é de origem bantu. As coreografias são, a priori, de movimentos bantus, dos movimentos de pés no chão, dos movimentos de angola, dos movimentos de abaixar, da cuia (a famosa cuia!), os movimentos corporais mais específicos, de braço, de perna, de coisas mais fortes. A partir desse princípio de movimentos que aprendemos com os Mkise a gente vem percebendo a questão musical. O pé está conectado com o toque. O toque dá um slap a gente mexe, vira o pé, roda. Há sempre uma marcação com o pé. [...] sempre firme, sempre expressivo. A gente tem essa característica em todas as coreografias. Eu falei da questão de escrever os movimentos porque cada coreografia tem um movimento específico ou vários têm esses movimentos bantus. É isso que eu penso, em como eu vou escrever essas coreografias que tem esses movimentos específicos, desse pé, dessa marcação, do rodar, do chegar no tempo certo. A gente vem a partir dessa construção. As primeiras bailarinas do Bankoma foram as senhoras daqui do terreiro, as vizinhas. Elas que viam os Mkise e nos mostravam. Depois vieram outras mulheres, outras artistas. A gente nunca perdeu isso, essa contagem, esse movimento do pé, estar sempre firme, mais para baixo. E os elementos dos Mkise: Ele é Ogum, é Nkose, que homem é esse? É o guerreiro, é o ferreiro, é a tecnologia. De que forma a gente vai mostrar esses movimentos? Reverenciando essa energia. É o braço, é o corte, é o pé no chão para poder ir para a guerra, é o agachar para esperar para avançar… as coreografias de Nkose... Tivemos dois anos de guerreiro, dois anos de Ogum. Para cada tema fizemos movimentos expressivos, de avançar, de atacar, de ter uma arma mesmo, um escudo.


No ano de 2008, “Guerreiros de Paz”, a gente só levou um escudo. Os movimentos eram para se defender e a gente fez a defesa o tempo todo, nunca de ataque. Em 2013 que veio o guerreiro de novo, mas veio de outra forma, com outras ferramentas, com as tecnologias que ele traz. A gente veio com o escudo e com a lança para poder avançar e atacar. Então os movimentos foram também baseados nisso, a gente avança, a gente ataca, a gente se defende. Então a gente fez movimentos de grupo mais fechados, as pessoas por perto umas das outras, o movimento do grupo fechado, aglomera, depois a gente expande, avançando... ataca, depois recua. É essa impressão que a gente tem da coreografia e da música, esses elementos estavam na música indicando esses movimentos. Essa coreografia de guerreiro é muito impactante, se percebe naturalmente os movimentos que a gente está fazendo. Avançar, abaixar, pegar, abrir, fechar, correr, muitos movimentos expressivos que a energia de Nkose faz. Avançar, cortar, recuar e estar sempre à frente, cortando, livrando os caminhos. A dança bantu é isso, o espelho dos Mkise bantus, essa energia que o Nkise tem naturalmente e, a partir dessa força que as energias têm, a gente vem trazendo a coreografia.


O ano de Dandalunda foi o ano de Muxima. A gente levou todas as mulheres. A gente não pensou numa mulher frágil, pensamos numa mulher com força e determinação... porque Oxum também carrega uma espada, ela tem o espelho, mas também tem a espada. A gente percebeu que é uma energia forte, é uma energia de mãe... para ser mãe já é uma energia forte, você gerir é uma importância grande. Então a gente percebeu o que a energia de Dandalunda traz: a leveza da mulher, a leveza dos rios, o cuidado, o disseminar, o parir, o nascer e o fazer florescer; mas também tem a defesa, é uma mulher forte, ela usa a espada. A gente fez os movimentos de delicadeza de se maquiar, mas também de ir para a guerra. Tudo isso, a gente passa na aula de dança e a gente tem uma conversa antes para elas entenderem o motivo de cada movimento. É importante que o Bankoma tenha isso, cada ano tem um tema porque a gente se espelha e faz uma fundamentação dos movimentos a partir desses temas. Tivemos quatro Gongombiras, cada Gongombira de uma forma. Teve um ano em que foi um príncipe africano, que vinha com sua esposa. Então a gente levou os movimentos de caça, de ataque, com flecha, de olhar, observar, ver a caça e avançar. Depois teve outro caçador, que foi “O caçador em busca da paz” – o tema – a gente trouxe os movimentos de Gongombira de ir para cima, de pulo. Depois veio outro caçador que foi “O caçador de uma flecha só”, o tema de 2015 que diz que o caçador repousa a sua flecha para no outro dia ir caçar. Ele não repousa porque não conseguiu. Hoje ele não consegue, mas amanhã ele tenta de novo. A gente faz esses movimentos de repouso... Na coreografia tem isso de repousar a flecha e depois ir para o embate, ir para o enfrentamento. É uma estética nossa de origem bantu.


E sobre o futuro, minha expectativa é que tudo isso passe logo para gente poder estar bem próximo, não virtualmente, mas pessoalmente. Para a gente poder dar continuidade ao nosso trabalho, nossos ensinamentos e tudo o que a gente faz aqui dentro do terreiro. Ficar parado é muito triste. A gente vê os meninos novos indo por outro caminho que não a cultura. A cultura faz isso, dá energia, dá força, dá garra para você enfrentar determinadas situações da sua vida. No futuro a curto prazo, espero que tudo isso passe para poder a gente caminhar e voltar a nossa rotina.

Estou com 26, daqui a uns 30 anos vou estar com 56. Eu vou estar na aula de dança, um estouro, ainda dançando. Tem meninas aqui com 45, 50 anos. A gente levou uma senhora, dona Conceição, um arraso! Ela veio fazer umas aulas e ela falou “Quero ir para Ala de dança com vocês!” E foi muito importante a passagem dela com a gente, ter esse olhar para uma pessoa mais velha aqui com a gente, respeitando, querendo aprender, ensinando, automaticamente, uma coisa natural de nós duas a todo mundo. Ela foi para a Avenida e bailou.


Futuramente, espero que o mundo já tenha vindo reconhecer a nossa notoriedade e que a gente não tenha tantos empecilhos... que, com o passar dos anos, a gente tenha mais facilidade... que as pessoas entendam o nosso compromisso, o nosso comprometimento com a cultura, com a dança, com a comunidade... que o mundo veja isso para podermos ter um retorno financeiro. Porque é difícil a gente manter uma instituição sem incentivo. O incentivo aqui vem dos filhos, mas sempre pesa. Infelizmente a gente vai se privando para poder cobrir orçamentos. No futuro, quero que a gente tenha a notoriedade de grandes artistas... que é só colocar o nome deles que o projeto é aprovado, com o orçamento lá em cima. O pagamento é feito sem questionamento... no dia seguinte. Espero que a gente chegue nesse patamar de receber pelo que a gente faz porque todo retorno financeiro é importante... para os meninos terem o retorno do suor do seu trabalho, do seu esforço. Espero que esse futuro seja isso: que a gente tenha notoriedade, reconhecimento de todo esse legado. Porque durante esses 21 anos a gente vê a representatividade... de poder estar aqui falando e representando o Bankoma, para mim, isso já é um futuro alcançado. A gente vê o trabalho da instituição e de todo mundo ser reconhecido. Acho que esse futuro já chegou, acho que é só o futuro do povo do lado de lá que quer nos barrar, mas a gente está aqui para afrontar o tempo todo e ter nosso espaço. A gente aprende isso aqui, todo mundo tem o seu dia, tem espaço para todos, a gente não quer tirar o de ninguém, só quer chegar onde as outras pessoas estão ou até mais. Então a gente vai para frente. É isso que eu quero. Chegar lá, sem atrapalhar ninguém, mostrando a força do nosso trabalho.


Imagem: Acervo Bloco Afro Bankoma


O Bloco Afro Bankoma tem realizado diversos projetos em 2021, é possível acompanhar o trabalho do bloco pelo canal do youtube: Afro Bankoma Oficial; e pelo instagram: @afrobankomaoficial.


[1] Optamos por adotar a grafia usada pelos meios de comunicação do Terreiro São Jorge Filho da Gomeia. Mkise são as divindades cultuadas pelas casas de candomblé angola, sendo Mkise plural de Nkise.


[2] Tata é um cargo ritual referente aos homens das comunidades dos candomblés angola.


[3] Xirê é o momento do ritual em que a comunidade do terreiro canta e dança reverenciando todos os Mkise cultuados no terreiro.





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