Buscar
  • Zona Torrida

[ENTREVISTA] João Paulo Petronilio

Atualizado: 29 de ago. de 2021

Nesta ocasião, conversamos com o artista João Paulo Petronilio sobre os processos de criação e difusão de um artista independente em tempos de retrocesso, veja a seguir nossa conversa. João tem 30 anos, é professor de artes, intérprete-criador com formação em dança contemporânea, mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Dança na Universidade Federal da Bahia, bacharel e licenciado em Dança pela Universidade Federal de Viçosa, tem curso incompleto de Educação Física pelo Centro Universitário de Caratinga-MG. Dedica-se em investigar a partir da contemporaneidade o acontecimento corporal de Exus e Pombagiras e suas urgências políticas, sociais e culturais. Atuou como intérprete em Cias, de dança contemporânea, dançando trabalhos de Mário Nascimento, Fernando Martins, Rosa Antuña, Welligton Júlio , Bruno de Jesus, entre outros.

Frame do video-dança 'Catiço' (2021). Fotografia de Laryssa Machada


Victor Bastos: Como se dá a formulação de sua metodologia fazer corpo / tomar corpo / dar corpo na sua trajetória enquanto dançarino negro?

João Paulo: Embora minha produção de dança aconteça a partir das poéticas das encruzas, essas que performam e são a própria relação de contato e conflito produzida pela diáspora negra transatlântica, não me limito em reproduzir ou representar as dramaturgias que constituem tais fazeres. No entanto, o que proponho, é fazê-las a partir de uma linguagem contemporânea de dança. O que seria linguagem contemporânea de dança? Penso a contemporaneidade como um recorte tempo-espacial do agora. Ou seja, o ‘agora’ como linguista/comunicador estético e performático da minha dança. E desse modo, o 'agora' é a constituição palpável da anterioridade e a única possibilidade de anunciar o futuro. Nesse caminho, danço as urgências que formam e, logo, danço as urgências que constituem os pontos renováveis de identificação que versam 54% da população desse país, que é preta e parda, de tão preta. Danço a morte dos meus movido por desejo de recriação de novos futuros e, assim, eu confundo o contrato de morte, assinado de forma compulsória pelas atualizações da colonialidade. Pois, para nós, a morte não é o fim. Danço o invisível que vi no meu quintal e todas as velas que meu pai acendeu para as almas, às segundas-feiras, do lado de fora de casa, ao rés-do-chão. Através da recriação dou forma aos sambas e às cachaças que os meus tomaram e, tomando, foram tomados das encantarias que eram produzidas no meu quintal. Assim, digo/danço sobre os demais quintais que formam as complexidades desse país. A liminaridade dos mundos me importa, por isso, incessantemente, eu caio e volto, vibro, giro-desequilíbrio, vou-mais-não-vou, pois apenas assim eu consigo conceber algo, mesmo que de forma efêmera às disparidades que constituem o terreno assimétrico que forma meu país.


V.B.: Como você vê a questão do mercado da dança e sobre viver de dança com dignidade? Quais as vantagens e os riscos que o engajamento corporal adquire no contexto atual que o brasil se encontra pandemia e o desgoverno brasileiro? E quais as estratégias possíveis de resistência?


J.P.: É preciso se movimentar, seguir dançando. No entanto, tem sido quase impossível viver tão somente de dança. Exceto se você é classe média e branco ou possui os demais marcadores socioeconômico que lhe proporcione tal recurso. As pessoas que tenho me relacionado nesse período, ou aqueles que consigo visualizar, seguem dançando em suas redes. No entanto, têm se arriscado trabalhando em subempregos para garantirem o mínimo - digo: alimentação e moradia. Seguindo tal factualidade, a estratégia é ficar vivo se assegurando em estruturas coletivas que auxiliem nas sobrevivências. Seja quais forem.


V.B.: Quais impactos esse momento produz no seu processo de criação?


J.P.: Criar também é forma. Vivo formulando o dia, quando possível, recriando ou me desviando das precariedades. Deste modo, meu caminho de criação está cruzado com minha própria existência. Vou criando de corpo oblíquo, que ginga e confunde as imposições, criando fantasias que se movem pelo desejo, às vezes, palpável de ser saciado de tudo. Inteiro na vida. É possível? Não suportaria a vida própria se eu não estivesse implicado visceralmente em recontar meu mundo. Recontar é criar.


V.B.: Qual sua opinião sobre arte e política?


J.P.: “Como você pode ser um artista e não refletir sobre os tempos" Nina Simone. Inicio essa resposta com essa frase dita pela lendária Nina Simone para dizer que a minha relação com arte-política se dá, de alguma maneira, desde o meu quintal. Seja movido pelos os sambas do Bezerra da Silva, os raps de Racionais Mcs, o encontro com a compreensão de coletividade ou através das filosofias que constituem as macumbas que são elaboradas através da tríade: corpo-mito-ritual. A minha formação política sempre esteve cruzada pelo fazer artístico e, dessa forma, sou levado a um contínuo encontro crítico do meu lugar de enunciação de vida, elaborando, assim, a minha subjetividade através dos outros-outrando. Por isso, acredito que seja urgente que a arte aconteça em dinâmicas estéticas e performáticas que anunciem, friccionando, recriando e denunciando as coisas do mundo… Entendendo a arte como o transbordamento do corpo e o corpo como território que instaura a existência.

A arte sempre será, em proporções conscientes ou não, um movimento político. Pois, se dizemos de corpo, afirmamos lugar, trânsito sujeito relacional e mundo. Assim, me arrisco a dizer que arte, enquanto experiência do corpo, é legitimamente política. Arriscar ou se proteger diz sobre as políticas de lugar.


V.B.: Qual sua opinião sobre a relação corpo, meio ambiente e arte?


J.P.: Tenho caminhado para uma compreensão de mundo menos cartesiana e, nesse caminho, me reencontro com os saberes-fazeres performáticos, que dizem sobre as existências que compreendem o mundo de forma cíclica, circular e, por vezes, espiralada. Somos parte do TODO, as performances ritualísticas negras e indígenas acontecem sempre assentadas nessa relação corpo-arte-meio ambiente, não há desassociação. É importante compreender que o conceito de arte aplicado a esse modo de vida extrapola a concepção positivista de compreender o mundo. Aqui penso arte como a experiência ritualística do viver: planta-se a partir da condução das luas; colhe-se antes das 18:00 horas; massera-se e colhe o sumo para cura; alimenta-se a terra com sangue; saúda-se o chão antes das 10:00 e depois das 16:00. É preciso deixar o sol esfriar para “saudar a casa”. A casa é de terra. Terra é chão. Dá de comer à cabeça. Cabeça é corpo. Dá de comer às ruas, da cachaça às encruzas. Toma-se banho de folha do pescoço para baixo; canta-se o mundo em roda; bate cabeça para o tambor. Tambor não é coisa, é vivo. A ciência é feita ao rés-do-chão. O segredo, o silêncio, a saliva, o sopro... tudo exercita continuamente o sensível e, assim, não se perde a direção dos sentidos do mundo. Aqui, o equilíbrio do mundo é um movimento constante de troca.


Saiba mais sobre Jõao Paulo Petronilio nas redes sociais: @joaopetronilio


21 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
zona tórrida_IDV-16.png