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[ENTREVISTA] Luzia Amélia

Conversamos com Luzia Amélia. Bailarina, performer, coreógrafa, feminista, arte educadora e artista visual. Doutoranda em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Primeira Mulher negra brasileira a fazer doutorado em dança no Brasil. Propõ investigações em dança partindo das relações entre a pesquisa artística e acadêmica no âmbito das questões de raça, gênero e classe, construindo um campo de experiência que convergem em configurações de dança contemporânea implicadas na contemporaneidade.


Victor Bastos: Como se dá a formulação de sua metodologia “fazer corpo / tomar corpo / dar corpo” na sua trajetória enquanto dançarina negra?


Luiza Amélia: Procuro escapar a essas categorias oriundas de experiências de dor, perdas contínuas e apagamentos que o colonialismo provocou para pessoas negras e indígenas. Enquanto dançarina negra, gostaria de ser uma dançarina. Apenas isso. Acredito que, em todos os lugares em que se usa o termo “negra” ou “negro”, é porque, na verdade, esse lugar não me convida a entrar. Sei que tenho uma longa jornada para chegar nesse lugar... que é mais sobre uma espécie de reconhecimento humano, livre de categorias criadas para nos separar, controlar e dominar. Mas estamos longe disso, já que viemos de “uma longa história de silêncio imposto. Uma história de vozes torturadas, línguas rompidas, idiomas impostos, discursos impedidos e dos muitos lugares que não podíamos entrar”[1]. Tenho tentado buscar outros olhares que investiguem corpos partindo de outras perspectivas. Corpos que não foram categorizados pela experiência colonial. Nesse sentido, o olhar do arqueólogo me interessa muitíssimo. Desde 2012, quando realizei minha pesquisa de mestrado intitulada “Grafias na pedra: índices evolutivos da dança”, busco criar danças que possam acontecer para além da cor da minha pele. Trabalho basicamente buscando entrelaçar fases de uma pesquisa arqueológica com imagens advindas de corpos categorizados pelo racismo[2]. Se a arqueologia trabalha com vestígios, rastros, ossos e outros sinais de corpos sem pele, meu corpo de “dançarina negra”, categorizado, se volta para o passado para realizar uma dança presente.


O corpo como um sítio arqueológico, onde experimento prospectar. Procuro marcas, origens, histórias, memórias escondidas nos sinais, cicatrizes, tatuagens, formato das mãos, da boca... De onde vem as informações que estão no corpo? Acionar essas presenças anteriores: vó, bisavó, tataravó... Nunca danço sozinha.

Na fase de documentação, tenho trabalhado com imagens, como dito anteriormente, advindas de corpos categorizados pela experiência colonial. Vou misturando com minhas imagens de dança feitas na atualidade. Realizo um jogo, uma espécie de “mistureba”. Procuro me confundir, expandir meu olhar. Imagens de corpos negres e indígenas considerados exóticos são apresentados, muitas vezes, em feiras de fenômenos bizarros. Vou traçando relações entre diferentes imagens: corpos negros considerades exóticos e expostos em feiras europeias, de fenômenos bizarros humanos, como o de Sarah Baartman – conhecida popularmente como “A Vênus Negra” ou "A Vênus Hotentote" que foi transformada em uma atração de circo em Londres e Paris ainda no início do século XIX. Eu as entrelaço trabalhando mais profundamente com dois conceitos: o que a escritora, artista interdisciplinar e teórica Grada Kilomba nomina de Outridade, “a personificação de aspectos reprimidos do ‘eu’ do sujeito branco”, e a proposição da pesquisadora, professora e artista Adriana Bittencourt de “imagens como acontecimentos: dispositivos do corpo, dispositivos de dança”. Esses conceitos me possibilitam refletir sobre corpo, gênero, raça e colonialismo no meu campo fundamental de interesse: a dança.

Por fim, passo para a fase da escavação, procurando indícios e a história regida pela coevolução que aparece no meu corpo, na minha dança. Não somente no movimento da dança, mas também nas escolhas e nas relações com o ambiente e contexto. Entro em um estado de escuta comigo. Escavo meus movimentos, os movimentos de outras, outres... sempre cavando e escavando.


V.B.: Como você vê a questão do mercado da dança e sobre viver de dança com dignidade?


L.A.: Inexistente para pessoas negras. Eventos pontuais para artistas pontuais. Ainda vejo com muita tristeza uma(o) única(o) artista negra(o) nos festivais nacionais que, por meio de suas curadorias, com discursos hiper democráticos e antirracistas continuam perpetuando imagens de colonização. O que evidencia a “fixação de unidade” que Achille Mbembe nos lembra e que ainda é muito forte. Ou seja, na verdade, eles acreditam que uma pessoa negra dá conta de todas. Como se não fossemos extremamente diferentes em nossos jeitos de fazer dança. Nossas escolhas, contextos e corpos... São infinitos os entendimentos que cada pessoa/artista negre tem com seu corpo na dança. Eu não consigo imaginar um festival de dança contemporânea no Brasil com mais de dez artistas negres, a não ser se o festival tiver esse recorte de raça, o que para mim não é interessante.

A branquitude e seus privilégios na dança brasileira seguem avançando. Só que, agora, amparados em discursos decoloniais. Como se isso desse conta! Agora eles nos dizem que é a nossa vez: mulheres, negras, pessoas trans, indígenas... Mas o racismo é um vírus que habita nos corpos, muitas vezes, sem que percebamos. A mulher branca de franjinha ainda é (e será por muito tempo e ao lado do homem branco) os donos da dança, os detentores de poder, aqueles que têm suas questões contempladas, consideradas, questionadas, divulgadas. Enquanto nós, pessoas negras, trabalhamos triplamente para criar nossos trabalhos artísticos, para mostrar que temos singularidades e que um artista negro não dá conta de nossas diversidade de criações e para dialogar com a branquitude que, por ser tão autocentrada, se recente por pessoas negras estarem avançando, ainda que minimamente. Não é possível ainda sobreviver com dignidade. Penso que temos um longo tempo ainda para que possamos estar nesta condição.


V.B.: Quais as vantagens e os riscos que o engajamento corporal adquire no contexto atual em que o Brasil se encontra: pandemia e desgoverno? E quais as estratégias possíveis de resistência?


L.A.: Para responder a essa questão, trago minha performance, que intitulo “Banho de Sangue”. Nela, eu vivo os riscos que o meu engajamento corporal adquire no contexto atual brasileiro ao mesmo tempo em que minha corpa negra vem se configurando como uma estratégia de resistência. É a exposição de meu corpo de mulher negra como um manifesto errante e radical, inserido em uma sociedade onde a morte das minorias é o principal projeto político do Estado. Meu corpo revela, em uma única ação, arte, militância e ativismo, nesse tempo de regressão histórica em que vivemos.

O meu desafio é dançar banhada em sangue para ir de encontro à barbárie sobre os corpos das minorias no Brasil. O sangue exposto tenta recuperar a humanidade dos corpos desconsiderados, envoltos em preconceitos. Esses são meticulosamente construídos pelo sistema capitalista e escravista que sobrevive na contemporaneidade e segue construindo relacionamentos nos quais esse corpo é categorizado sob o amparo de um discurso de sub-humanidade.

Corpos negros. Corpos mulheres cis. Corpos mulheres trans. Corpos mulheres lésbicas. Corpos homossexuais. Corpos não-binários. Corpos indígenas. Corpos moradores de rua. Corpos moradores de vilas ou favelas. Corpos imigrantes. Corpos idosos. Corpos deficientes. Corpo indefinidos. Corpos outros. Corpos que não interessam podem ser arrastados nas ruas como animais, sufocados, rasgados, esfaqueados, desnudos, desrespeitados, agredidos e mortos pelo próprio estado. Corpos brasileiros banhados em sangue. Danço o extermínio desses corpos e eles dançam comigo. Minha dança é, dentre outras coisas, um argumento inadequado. Pretendo mesmo que seja, que emporcalhe, que bagunce, que torne inviável e improdutivo o lugar em que danço.

V.B.: Quais impactos esse momento produz no seu processo de criação?


L.A.: Impactos diários nesse tempo de morte, 2020 – 2021, pandemia convid 19, o tempo “do devir-negro do mundo”... não só pela pandemia, mas um conjunto assombroso de fatores insistem em permanecer. Quando todas, todes e todos são tratados como números. Corpos dispensáveis, fungíveis e descartáveis. Pessoas negras continuam sendo exterminadas pelo estado. Corpos negros seguem na pandemia numa assombrosa desvantagem, seja no acesso à saúde, educação e segurança, seja nas diásporas intermináveis. Nesse sentido, como artista da dança, preciso seguir criando, ao mesmo tempo que sigo percebendo, no meu corpo e em outros corpos negros, projeções do olhar da branquitude que fortalecem o racismo. Criar danças para mim é desobedecer ao tempo presente, o tempo da distância, da solidão, do silêncio, do confinamento e do medo. Criar é me colocar em um exercício artístico, político, poético e necessário para minha jornada enquanto artista.


V.B.: Qual sua opinião sobre arte e política?


L.A.: Entendo a dança como espaço e condição para um ativismo artístico e político. Arte e política são indissociáveis. Arte como um exercício que desmonta o poder instituído. Política como exercício de relações de poder entre corpos. Fazer dança e pensar a dança é sempre um ‘posicionar-se’, um ‘atuar politicamente’. Muitas questões estão em pauta no Brasil, em todas elas são questões de arte, são questões de dança.

V.B.: Qual sua opinião sobre a relação corpo, meio ambiente e arte?


L.A.: A relação corpo, meio ambiente e arte são evidenciadas nessa imagem rupestre da Serra da Capivara (Piauí-Brasil). Onde vejo vestígios dessas relações. Quando me deparo com as imagens de corpos em movimentos, vejo a história gravada naqueles vestígios. A história escrita no corpo (em qualquer corpo) é uma história sem dicotomias, sem linearidades, é uma história de relações, de acontecimentos evolucionários, de acontecimentos culturais, de acontecimentos artísticos, de acontecimentos que tomam a forma do corpo.


Imagem: Toca da Extrema II Cena que representa o ritual em torno de uma árvore.


Para conhecer mais sobre Luzia Amelia, acesse: @luziaamelia_


[1] (KILOMBA, 2019, p.27).

[2] Uma pesquisa arqueológica, de acordo com a Fundação Museu doHomem Americano “começa pela fase da prospecção, que corresponde à fase na qual os pesquisadores procuram encontrar vestígios que permitam o reconhecimento dos sítios. A seguir passa-se a fase da documentação, faz-se o levantamento topográfico do sítio, isto é, seu mapa no estado em que foi descoberto. Fazem-se as fotografias, se há pinturas, as mesmas são fotografadas e copiadas. Em seguida dá-se início às escavações, única maneira de poder datar os achados e definir quais os vestígios que o arqueólogo encontrou” (Fumdham e Missão Arqueológica e Paleontológica do Piauí, 1998, p. 48-49).






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