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  • @pomba_sheeva

SER NASCENTE

Atualizado: 17 de mar. de 2021



Se auto compreender indígena ao mesmo tempo que se nasce e cresce em uma metrópole é um conflito que atravessa a existência de muites e, se além de indígena a pessoa for artista, a intersecção racial provavelmente atravessará suas práticas artísticas seja como tema ou como condicionamento que ume artista não-branco sofrerá no mercado das artes.


Mas aqui neste texto, quero me debruçar na conversa ancestral e de retomada pessoal enquanto indígena da etnia, supostamente extinta, Maracás.


Mediante o avanço da devastação colonialista, minhes ancestrais Maracás foram desterritorializades de suas terras, de suas práticas rituais e de suas subjetividades. Florestas foram queimadas, como ainda são, documentos foram queimados, como ainda são, e milhares de vidas exterminadas no Sertão dos Maracás (Bahia). Logo, resgatar a história dos que vieram antes de mim, é como costurar uma colcha de retalhos que envolve memórias verbais, crônicas, contos, recentes estudos acadêmicos e muito conhecimento intuitivo. Trata-se de um mergulho interno em uma corpa muite íntime e estranhe a mim, mas que, ao mesmo tempo, me compõe.


Um dia escutei uma máxima que dizia “você pode não estar no terreiro, mas o terreiro está dentro de você”. Olho os quintais da minha família no sertão...os quais sempre foram chamados de terreiro e são nesses espaços que as ervas são cultivadas desde muito tempo... são elas que me contam as histórias. Esse circuito herbal teve contato direto com as mãos de muitas avós, por isso, considero que quem me assopra informações sobre antepassades são as plantas, as mesmas que são medicinas para curar e amenizar todos os tipos de males. Seus sopros são como uma polinização neural.


Por um bom tempo, não me sentir pertencente à cidade onde nasci e cresci me causava mal-estar, pois de fato a sensação de estranheza era latente e desconfortante. Algo sempre pareceu fora do lugar e em certa altura do processo apreendi que quando não se tem lugar, fica-se livre a transitar na procura de si mesme.


A arte é um lugar de trânsito e de invenção, é o kaminho de uma viagem ao estranhe em mim e que se mostra, apesar de monstruose, hoje em dia, não mais temível.


É no desterritório de não-pertencimento e nas artes que encontro encruzilhadas identitárias que me ajudam a parir monstres cada vez mais bonites, vibráteis, amorfes, moventes, conectives e transantes, como espírites brilhantes que só os xamãs podem ver.


Hoje entendo que minha prática em artes é um incessante conectar, desconectar e reconectar, e, assim, a partir dessa corpa composte por conflitos intrapessoais e interpessoais eu transito, não como transeunte, mas como corporeidade em expansão.

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